28
Jan
10

Cura

Acredito na cura de tudo. Mas não faço dessa minha crença, meu dogma de vida, minha religião monoteísta ou meu transporte de esperança. Simplesmente vivo e existo em algum lugar que só eu sei precisar, em meio aos devaneios da mente e as sensações arrepiantes do corpo em êxtase profundo pelo sabor da vontade de ser. Acredito que tudo poderá ser curável. Mas não acordo com isso no pensamento e não passo o dia me corrompendo com a espera que pode levar dias, meses ou anos. É estúpido desejar ser imune ao sofrimento, a dor, ao choro, a risada, ao amor. Tudo se completa e ocupa o mesmo espaço, mesmo que a física diga que não, sofrer por amor ou amar sofrer é rir e chorar com os mesmos olhos que alimentam o animal incontido no interior e deixam ser alimentados por esse mesmo animal que se sacia com pouco e muito. A partir do momento que aprendo a me enxergar, a conhecer meus sentimentos e vontades, me rascunho sem me preocupar com a arte final, apagando traços não muito claros ou traços muito repetitivos, meu corpo e mente tornam-se leves e despreocupados e começam a trabalhar em uma sincronia metafísica incrível. Essa resolução interior deve ser revisada sempre e rascunhada eternamente e com ela em mãos há a minha própria aceitação, cria-se a segurança, minha capacidade aflora e desenho caminhos lindos nos quais muitas pessoas podem se encantar e caminhar comigo em total harmonia, respeito e admiração. Então, esqueço de pequenas mazelas que achava que consumiam meu organismo tão necessitado de sensações e emoções. Como em um choque a dependência de outras pessoas se torna algo intenso e preciso, uma conexão invisível com todos os seres que me rodeiam. Ligações infinitas são feitas a cada dia, a cada hora. A minha rede se estende a seres que não conheço e anseio por saber de suas histórias e realidades. Quero tirar-lhes o sorriso, roubar-lhes as lágrimas, mas nunca curá-los por completo. Busco dividir seus sofrimentos e doenças em partículas finas e saborosas por mais amargas que sejam as matérias-primas. Busco dividir minhas dores com o mundo, com a fantasia, com a real ilusão. Almejo ser quem eu sou hoje e espero nunca ser o mesmo de ontem. Um dia, eu sei que a cura chegará, enquanto isso aprendo a saborear a dor e a cada gole de lágrima vou me curando cada vez mais.


1 Resposta to “Cura”


  1. 30/01/2010 às 16:05

    Po, Marco, assim fica foda. Vc escreve muito, muito bem, velho!
    Pensei em falar em cura esses dias, mas fiquei agora meio inibida. O seu foi genial, Marco.
    Demorei pra vir aqui e ler com cuidado, mas já sei q virarei fã.


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