Acredito na cura de tudo. Mas não faço dessa minha crença, meu dogma de vida, minha religião monoteísta ou meu transporte de esperança. Simplesmente vivo e existo em algum lugar que só eu sei precisar, em meio aos devaneios da mente e as sensações arrepiantes do corpo em êxtase profundo pelo sabor da vontade de ser. Acredito que tudo poderá ser curável. Mas não acordo com isso no pensamento e não passo o dia me corrompendo com a espera que pode levar dias, meses ou anos. É estúpido desejar ser imune ao sofrimento, a dor, ao choro, a risada, ao amor. Tudo se completa e ocupa o mesmo espaço, mesmo que a física diga que não, sofrer por amor ou amar sofrer é rir e chorar com os mesmos olhos que alimentam o animal incontido no interior e deixam ser alimentados por esse mesmo animal que se sacia com pouco e muito. A partir do momento que aprendo a me enxergar, a conhecer meus sentimentos e vontades, me rascunho sem me preocupar com a arte final, apagando traços não muito claros ou traços muito repetitivos, meu corpo e mente tornam-se leves e despreocupados e começam a trabalhar em uma sincronia metafísica incrível. Essa resolução interior deve ser revisada sempre e rascunhada eternamente e com ela em mãos há a minha própria aceitação, cria-se a segurança, minha capacidade aflora e desenho caminhos lindos nos quais muitas pessoas podem se encantar e caminhar comigo em total harmonia, respeito e admiração. Então, esqueço de pequenas mazelas que achava que consumiam meu organismo tão necessitado de sensações e emoções. Como em um choque a dependência de outras pessoas se torna algo intenso e preciso, uma conexão invisível com todos os seres que me rodeiam. Ligações infinitas são feitas a cada dia, a cada hora. A minha rede se estende a seres que não conheço e anseio por saber de suas histórias e realidades. Quero tirar-lhes o sorriso, roubar-lhes as lágrimas, mas nunca curá-los por completo. Busco dividir seus sofrimentos e doenças em partículas finas e saborosas por mais amargas que sejam as matérias-primas. Busco dividir minhas dores com o mundo, com a fantasia, com a real ilusão. Almejo ser quem eu sou hoje e espero nunca ser o mesmo de ontem. Um dia, eu sei que a cura chegará, enquanto isso aprendo a saborear a dor e a cada gole de lágrima vou me curando cada vez mais.
28
Jan
10
Po, Marco, assim fica foda. Vc escreve muito, muito bem, velho!
Pensei em falar em cura esses dias, mas fiquei agora meio inibida. O seu foi genial, Marco.
Demorei pra vir aqui e ler com cuidado, mas já sei q virarei fã.