Arquivo da categoria 'Contos'

04
Mar
10

L

É de um vermelho apaixonante. Como no arrebol avermelhado de uma tarde de verão magnífica com todos seus mistérios e calores que produzem as mais incríveis sensações em meu corpo. É de um vermelho atraente e enlouquecedor. Como um fogo fátuo que se acende para transtornar a minha mente congelada com seu calor intenso e surpreendente. Que se acende para apaixonar quem ousar encarar diretamente sua chama intensa e vívida. É de um rubor inquietante que faz eu querer me queimar cada vez mais e mais em sua fogueira. Que corrói minha pele com seu toque aquecido e que faz, ao mesmo tempo, surgir uma camada de intenções inimagináveis por todo meu esqueleto. É de um calor intenso sua voz que sussurra em meu ouvido as mais picantes palavras que fazem suar todo meu ser. Sua boca rosada emana o gosto dos mais frescos morangos com toda a acidez de sua fruta macia e saborosa que quanto mais provo mais meu desejo clama por quantidades maiores. (Todo seu calor, me fez acordar e perceber que tudo não passara de um sonho cruel e maravilhoso que meu espírito, incandescido por aquele outro ser tão distante e tão atraente, almejou que tudo fosse verdade. Nossos corpos se encontraram em um misto de realidade e ficção criada por minha mente flamejante.) O que me alenta é saber que a crueldade da escuridão será sempre sobrepujada pela bonança do amanhecer avermelhado, que assim, em ciclos eternos, sempre retornará com sua estrela calorosa para reaquecer meu corpo que novamente quer, e necessita, se sentir vivo.

03
Fev
10

Sincronicidade

Ontem eu comentava dessa nossa ligação, dessa nossa conexão extremada, de você viver na minha cabeça, martelando imagens suas na minha visão, fazendo meu peito explodir de tanta pressão. Descobri até que isso tem um nome, sincronicidade. Engraçado pensar em alguma sincronia com alguém que está tão longe, com alguém que está tão perto. Parece que você vive em mim, que sinto seu coração pulsar no meu, que sinto seu orgasmo enviando sinais pro meu sexo. É tudo tão maluco e estafante. Imaginar sua respiração diluída na atmosfera chegar aos meus ouvidos com uma intensidade absurda. Sentir o cheiro do tesão úmido e quente que me faz tremer. Vejo teus olhos abertos quando fecho os meus e ouço tua voz dizer que me quer ali, agora. Penetro nos teus lençóis, na tua cama, no teu sono. Aconchego-me no teu corpo que transcende colado ao meu a um nível superior sem nome, sem rótulo, sem explicação. Sua pele se une a minha, sua boca recita meus poemas e então nos tornamos um só, hermafroditas. Tudo se passa em nossas mentes enquanto nossos corpos permanecem paralisados em algum lugar do universo colidindo com os mais perfeitos astros cósmicos. A dor não existe. O sofrimento é quase nulo. Só há espaço para o turbilhão de sensações arrepiantes que mostra que a respiração se torna um mero detalhe. Revivo esse momento de segundos eternos a cada instante do meu dia, montando o mais desafiante e prazeroso quebra-cabeças. As peças se encaixam e se desencaixam a meu bel-prazer e depois de muitos erros cometidos por minha vontade vejo que nada precisa se encaixar, que não busco a constância de nossos atos e sim a volatilidade de cada olhar, de cada palavra. Então percebo que tenho você a todo o momento.

24
Jan
10

Aparência

E o mundo parecia que iria acabar. Todos se olhavam com medo e dor e sentiam as mesmas sensações de seus ancestrais mais sábios que tentaram dizer que o que deveria ser semeado era algo muito mais sublime e que a própria vida dependia disso para fazer sentido. Os descendentes destes ancestrais não souberam distinguir o que os levara àquele caminho sem volta, muitos tentaram pesquisar a fonte do problema, mas seus aparelhos apenas detectavam abalos sísmicos e sons ensurdecedores que vinham de algum lugar não muito distante. Filósofos buscaram em outros filósofos as respostas que nunca ninguém dera, mas nenhum deles sabia a pergunta exata, e por medo de arriscar e errar se manteram calados pela eternidade. Músicos seduziram seus próprios acordes para que estes transmitissem a frequência exata de seus desejos aos deuses em que acreditavam ter radiolas que captavam as ondas sonoras que imploravam clemência por tanta negligência. Os deuses riram todos ao ouvir o apelo desesperado de seres que falavam de descuidos, mas sem saber o que haviam feito de errado. Poetas e falsos poetas rimavam loucamente em busca do verso perfeito para descrever aquele momento único, mas pecaram na busca da perfeição nas palavras que, como a contra-gramática dissera, eram imperfeitas e belas por si só. Astrônomos traçaram novas linhas imaginárias entre as constelações mais distantes já vistas pelos extraordinários telescópios para descobrir se o rumo dos seus estava escrito nas estrelas ou se alguma supernova havia alterado a quarta dimensão. Os adultos haviam enclausurado suas crianças em condomínios altíssimos para que eles ficassem cada vez mais longe da terra poluída pelo excremento nunca visto. As crianças, por sua vez, enclausuraram os pais com suas brincadeiras para que nunca mais fossem dormir ou perdessem seu crescimento e suas fantásticas fantasias. Ninguém mais sabia para que a televisão servia. Os jornais nada mais noticiavam. As novelas eram muito mais repetitivas. Os filmes só ficcionavam uma catástrofe iminente, com meteoros flamejantes bombardeando o céu cinza e a terra negra, quase sem vida alguma. Os heróis perderam seu trabalho, não que eles houvessem perdido o ímpeto da salvação, mas sim, as outras pessoas possuíam, agora, mais que antes um medo crônico de tudo e de todos. Ninguém mais ao se encontrar, nas raras ocasiões em que isso ocorria, se tocava ou se beijava. Tinham medo da doença que vinha do estômago e que pressionava o peito. Tinham medo da doença que dava vontade de viver sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Da doença que parecia incurável e que nunca existia sozinha e que fazia as pessoas se quererem e se desejarem e se sentirem voando sem nenhum artifício mecânico. Os livros de medicina dos Ancestrais nunca mencionaram essa terrível patologia. Não havia experimentos ou testes de qualquer gênero. Não se conformaram com a falta de sabedoria de seus predecessores, sentiram-se traídos e jogados a própria sorte. Mas, os médicos atuais, também não gozaram de tanta sorte ao tentar diagnosticar o mal que os assolava. Não havia mal. Isso era o que dizia uma seita de jovens sonhadores que acreditavam na teoria da conspiração sentimental. Espalhavam panfletos em todos os lugares dizendo que o medo era o mal que dominava todos os corações e havia desenhos que explicavam o que era uma conversa, de como se olhar nos olhos, de como sorrir e todas essas coisas que todos haviam esquecido, mas que, na verdade, ainda fazia parte do DNA de cada ser. Diziam também que o único remédio era recuperar a semente que faria a vida ter sentido novamente. Muitos se recordaram daqueles dizeres apesar da grande amnésia coletiva que maltratava a sabedoria dos grandes xamãs com 300 anos de vida que viviam sob a terra no mais pleno conforto de suas sensações incríveis que mesclavam alegria e tristeza, pessimismo e otimismo, realidade e esperança. Na verdade, aqueles xamãs eram os verdadeiros Ancestrais de outrora, exilados por seus filhos, aprisionados por seus netos, torturados por seus bisnetos e esquecidos pelas gerações seguintes. Não pareciam decrépitos ou tampouco mumificados. Tudo por culpa do bálsamo que tomavam todos os dias pelas manhãs e que tinha o gosto de mil de ervas doces. Sabiam de tudo o que acontecia acima de suas cabeças. Enxergavam através do grande espírito da união que era evocado toda noite após o transe que culminava em olhos sem pupilas e bocas sem línguas. Não havia líder entre os xamãs Ancestrais, todos discutiam os rumos de seus filhos, netos, bisnetos e a melhor resolução era talhada no corpo invisível da mente. Quando receberam a visita de seus descendentes – que recordaram que tinham um passado e que este estava enterrado sob o Vale da Ingratidão – prepararam um banquete de raízes, frutas e tubérculos de todos os tipos e sabores e que deixavam o hálito fresco, as bocas úmidas e os olhos se enchiam de uma água salgada. Os descendentes se emocionaram pela primeira vez e estranharam ao se sentirem bem com aquele sintoma de certa doença que achavam que existia. Recordaram inúmeras histórias de suas vidas. Tocaram uns aos outros ao descobrir coisas diferentes no seu semelhante. Aprenderam a ouvir, a enxergar e a falar com todos os membros do seu corpo. Foram bons alunos de ter medo do medo sem fundamento. Souberam que emoção e razão são irmãs siamesas, mas que às vezes se separam por alguns instantes e que cabia a eles controlar-lhes o ímpeto. Descobriram que seus corações batiam e, não somente isso, tinham inúmeros ritmos e melodias que bem musicados poderiam salvar o mundo. Por um momento haviam se esquecido que seu planeta estava sob grande perigo. Haviam se esquecido do motivo pelo qual procuraram os Ancestrais. Haviam passado dias sob a terra redescobrindo sensações e sentimentos perdidos através do tempo e pensaram ter feito uma viagem sem propósito. Os xamãs não se alteraram e disseram que eles haviam encontrado o que procuravam. Explicaram que a tal semente nunca existiu de fato, que era um mero pretexto para encorajá-los a buscar o que perderam no caminho tortuoso que escolheram. Uma paz suave exalou o cheiro de flores frescas e inebriou todos os seres ali presentes. Seus corações começaram a bater cada vez mais forte e em um ritmo único. Uma melodia deliciosa era cantada pelo vento e espalhada em todas as direções. Seus corpos se iluminaram e acenderam as luzes na escuridão mundana. Não saberiam nunca o nome daquele sentimento sublime e que dava sentido a vida. Talvez este sentimento não fosse único, mas era suficiente a todos. E, então, o mundo só pareceu que iria acabar.

28
Dez
09

A Porta

O que me interessava era o jeito dela abrir as portas. Ela se levantava lentamente de seu assento erguendo-se nos lindos joelhos que davam continuidade a belas coxas grossas e rebolava vagarosamente com seus pés silenciosos até a parede. Do chão eu a via recostar-se ao lado do batente e me olhar com aqueles tremendos espiões castanhos sempre a fustigar minha ansiedade. Ah, como Ela ria do meu desespero. Lembro-me constantemente de seus dedos longilíneos percorrendo seu corpo, suas curvas tão bem esculpidas pelo mais sarcástico dos artistas. Desde sua barriga até a extremidade de sua outra mão, seus dedos deslizavam ao encontro da maçaneta que preenchia seu palmo com o desejo de ser utilizada. A porta fremia e rangia ao toque como se gritasse e implorasse o fim daquela dolorosa tortura. E Ela ria cada vez mais. Por um momento pensei em me levantar e forçá-la a acabar com aquilo, mas meus ouvidos recebiam a freqüência do som que saía de sua boca e que dizia: Eu prometo. Uma afirmação que de tão vaga me alentava e me fazia sentir que continuaríamos naquela batalha silenciosa até o fim de minha existência.

Finalmente a porta se abriu. A luz do dia ofuscava minha vista tão destreinada a outras belezas tão menos complexas. Ela caminhou em minha direção com todo aquele gingado característico mesclando-se à luz do sol, a qual ficava em segundo plano. Meu coração cada vez mais acelerado e inconsciente de sua iminente liberdade foi acalmado por aquelas mãos que um dia o estrangularam. Seus olhos sorriam enquanto sua boca, que soltava risos de chacotas, se aproximava da minha em perfeita inércia. Seus lábios tocaram os meus e em um murmúrio abafado pela saliva Ela disse: Está livre. Supliquei para aquilo não acontecer. Implorei em nome de todos os Deuses em quais não acreditava. O que recebi em troca foi um último sorriso, dessa vez menos irônico. Ela se levantou, deu-me as costas e caminhou em direção a porta que permanecia aberta. Atravessou o batente e com a chave que trazia no bolso me trancou naquele cômodo infernal para sempre. E eu amava o jeito com que ela fechava as portas.

26
Dez
09

O Dia Em Que Matei Papai Noel

Já tinha escrito muitas cartas para aquele velho safado. Todas eu entregava nas mãos de mamãe que sempre colocava na caixa do correio. Nelas eu me rebaixava e dizia o quanto havia sido bom o ano inteiro. O quanto tinha ajudado vovó a se levantar do sofá, que tinha parado de dizer que minha irmãzinha era adotada, que não xingava mais papai, agora só em pensamento, e que tinha dado comida para o cachorro todos os dias. Apesar de todo esse meu esforço nenhum pedido foi atendido. Quando pedi um vídeo game, ganhei um Detetive e jamais consegui arrumar alguém pra jogar comigo. Quando pedi uma bola de capotão profissional ganhei um pé quebrado. O cúmulo foi quando pedi o amor de Francine, a garota mais linda do fundamental, e o velhote me trouxe de presente uma carta apaixonada de Robertona, zagueira do time masculino de futebol na educação física. Eu não aguentei e resolvi tirar a limpo toda essa farsa de Natal e Bom Velhinho.

Decidi que minha vingança seria simples e definitiva. Escrevi a melhor carta de todas as crianças, me humilhando e mentindo como em todas as outras. Mamãe mais uma vez enviou a correspondência para o iglu do maldito. Na véspera de natal abri a gaveta de papai e preparei o presentinho do Noel. O levei para o quarto e coloquei em baixo do travesseiro juntamente com o relógio pronto para despertar à meia noite. Nem foi preciso o sinal do relógio e eu já estava a postos na poltrona para o confronto final. Foi quando escutei a porta se abrir e ouvi passos no corredor que dava na sala. Tinha de ser ele. E era. Tivemos nossa primeira e última conversa às luzes do pisca-pisca:

- Ora, Ora, Ora. Vejam se não é o Senhor Presentes Errados. Ou seria Santo Nicolau?

- Ho ho ho (Noel estava surpreso nesse momento). Esta hora já era para garotinhos estarem na cama.

- Vamos aos fatos, velho. Qual sua importância nesse grande teatro?(Enquanto fazia círculos no ar com o dedo)

- Trazer presentes para homenzinhos como você…

- Que se comportaram o ano todo…

- Exato…

- PARA RECEBEREM OS PRESENTES QUE NÃO PEDIRAM!

- Ho ho ho

- Do que o senhor está rindo?

- Bem é que desta vez…

- Cale a boca, cretino. Desta vez quem tem o presente ideal sou eu. (Ergui minha camiseta e…) Diga olá para minha amiga Pistola Automática.

- Ho ho ho.

- Sente-se, Noel. Temo que esta conversa seja um pouco longa.

- Escuta aqui, garoto. Já lidei com muitos bastardinhos como você. Se pensa que é o primeiro que me ameaça com uma arma de brinquedo, você é um retardadinho que merece um castigo pro resto da vida.

(BAM!)

- Hahaha. Palmas para o senhor! E todos os rótulos de coca-cola mostrando o quão bonachão esse miserável é. A propaganda é realmente a alma do negócio e estão prestes a perder seu garoto propaganda. Ah, esqueci de falar, a arma é de verdade.

- Cacete, moleque, você atirou na minha perna…

- Me senti assim com o pé quebrado. Nunca ia poder jogar a bola que você nunca me deu. Posso te chamar de você, não?(Tentativa de ser agradável com a visita)

- Tudo isso por causa de uma bola?

- Não seja cínico, velhote. Passei um ano inteiro fugindo de uma menina três vezes maior que eu. E tudo por sua culpa.

- Ela tem um belo chute de esquerda, não? Ho ho ho.

- Tudo bem, suas graças acabam por aqui, Noel. Um último pedido?

- Olhe no meu saco.

- Adeus.

Com um tiro na cabeça deixei o velho ao pé da árvore de Natal. Como sou um bom menino cumpri seu último pedido. Abri seu saco, e lá estava meu presente: Um cartão musical que desejava Feliz natal assinado por Robertona.

09
Dez
09

O BANQUETE

Não podia dizer que não havia procurado aquilo. Claro, seus olhos eram irresistíveis e dava uma vontade de comê-los ali mesmo. Foi quando decidi que a colocaria dentro de mim. A degustei de todas as formas possíveis. Parte por parte. Saboreei primeiro sua indiferença com grandes doses de consternação. E quanto mais me alimentava mais fome eu sentia. Depois escolhi seu orgulho ao molho de zombaria. Confesso que comecei a me sentir nauseado, mas meu estômago aguentava muito mais, então, continuei minha ceia, agora com garfos e facas. Fisguei sua língua que tinha o sabor do veneno da ilusão, suguei todo aquele fel poderoso e me senti o homem mais fantástico do universo, capaz de voar sem vontade de vomitar.

Inebriado por aquele falso néctar arranquei seus braços e os envolvi em doçura para que não fossem capazes de interromper minha mais deliciosa refeição. Suas mãos eram veludos que cheiravam a ternura. Cheguei a suas entranhas e não desperdicei nem um centímetro daquilo que só servia para digerir meu amor. Sua respiração era cada vez mais prazerosa e meu apetite insaciável. Seu gemido de dor e prazer me alegrava ainda mais. Abri seu sexo com cuidados de Gourmet. Devorei a carne mais macia que já havia comido e trago comigo o perfume que exalava a cada mordida.

O banquete acabara e a fome havia me deixado. Após o arroto de alívio procurei seu rosto. Seus olhos paralisados continuaram a procurar os meus que estavam marejados pela visão divina daquele corpo paradoxalmente mais vívido a cada segundo. Com um sorriso avermelhado ela sussurrou em meu ouvido que ainda não havia acabado. Que o principal eu deixara de lado e como castigo eu nunca haveria de saborear tal carne nobre. Meu âmago se congelou e senti que todo aquele esforço havia sido em vão. Desesperado em meio ao lamaçal rosado de dor, perguntei entre gritos do que ela falava. Com ironia e cinismo ela me respondeu, Você nunca terá meu coração, amor.




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