O BANQUETE

Não podia dizer que não havia procurado aquilo. Claro, seus olhos eram irresistíveis e dava uma vontade de comê-los ali mesmo. Foi quando decidi que a colocaria dentro de mim. A degustei de todas as formas possíveis. Parte por parte. Saboreei primeiro sua indiferença com grandes doses de consternação. E quanto mais me alimentava mais fome eu sentia. Depois escolhi seu orgulho ao molho de zombaria. Confesso que comecei a me sentir nauseado, mas meu estômago aguentava muito mais, então, continuei minha ceia, agora com garfos e facas. Fisguei sua língua que tinha o sabor do veneno da ilusão, suguei todo aquele fel poderoso e me senti o homem mais fantástico do universo, capaz de voar sem vontade de vomitar.

Inebriado por aquele falso néctar arranquei seus braços e os envolvi em doçura para que não fossem capazes de interromper minha mais deliciosa refeição. Suas mãos eram veludos que cheiravam a ternura. Cheguei a suas entranhas e não desperdicei nem um centímetro daquilo que só servia para digerir meu amor. Sua respiração era cada vez mais prazerosa e meu apetite insaciável. Seu gemido de dor e prazer me alegrava ainda mais. Abri seu sexo com cuidados de Gourmet. Devorei a carne mais macia que já havia comido e trago comigo o perfume que exalava a cada mordida.

O banquete acabara e a fome havia me deixado. Após o arroto de alívio procurei seu rosto. Seus olhos paralisados continuaram a procurar os meus que estavam marejados pela visão divina daquele corpo paradoxalmente mais vívido a cada segundo. Com um sorriso avermelhado ela sussurrou em meu ouvido que ainda não havia acabado. Que o principal eu deixara de lado e como castigo eu nunca haveria de saborear tal carne nobre. Meu âmago se congelou e senti que todo aquele esforço havia sido em vão. Desesperado em meio ao lamaçal rosado de dor, perguntei entre gritos do que ela falava. Com ironia e cinismo ela me respondeu, Você nunca terá meu coração, amor.

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O DIA QUE MATEI PAPAI NOEL

Já tinha escrito muitas cartas para aquele velho safado. Todas eu entregava nas mãos de mamãe que sempre colocava na caixa do correio. Nelas eu me rebaixava e dizia o quanto havia sido bom o ano inteiro. O quanto tinha ajudado vovó a se levantar do sofá, que tinha parado de dizer que minha irmãzinha era adotada, que não xingava mais papai, agora só em pensamento, e que tinha dado comida para o cachorro todos os dias. Apesar de todo esse meu esforço nenhum pedido foi atendido. Quando pedi um vídeo game, ganhei um Detetive e jamais consegui arrumar alguém pra jogar comigo. Quando pedi uma bola de capotão profissional ganhei um pé quebrado. O cúmulo foi quando pedi o amor de Francine, a garota mais linda do fundamental, e o velhote me trouxe de presente uma carta apaixonada de Robertona, zagueira do time masculino de futebol na educação física. Eu não aguentei e resolvi tirar a limpo toda essa farsa de Natal e Bom Velhinho.

Decidi que minha vingança seria simples e definitiva. Escrevi a melhor carta de todas as crianças, me humilhando e mentindo como em todas as outras. Mamãe mais uma vez enviou a correspondência para o iglu do maldito. Na véspera de natal abri a gaveta de papai e preparei o presentinho do Noel. O levei para o quarto e coloquei em baixo do travesseiro juntamente com o relógio pronto para despertar à meia noite. Nem foi preciso o sinal do relógio e eu já estava a postos na poltrona para o confronto final. Foi quando escutei a porta se abrir e ouvi passos no corredor que dava na sala. Tinha de ser ele. E era. Tivemos nossa primeira e última conversa às luzes do pisca-pisca:

- Ora, Ora, Ora. Vejam se não é o Senhor Presentes Errados. Ou seria Santo Nicolau?

- Ho ho ho (Noel estava surpreso nesse momento). Esta hora já era para garotinhos estarem na cama.

- Vamos aos fatos, velho. Qual sua importância nesse grande teatro?(Enquanto fazia círculos no ar com o dedo)

- Trazer presentes para homenzinhos como você…

- Que se comportaram o ano todo…

- Exato…

- PARA RECEBEREM OS PRESENTES QUE NÃO PEDIRAM!

- Ho ho ho

- Do que o senhor está rindo?

- Bem é que desta vez…

- Cale a boca, cretino. Desta vez quem tem o presente ideal sou eu. (Ergui minha camiseta e…) Diga olá para minha amiga Pistola Automática.

- Ho ho ho.

- Sente-se, Noel. Temo que esta conversa seja um pouco longa.

- Escuta aqui, garoto. Já lidei com muitos bastardinhos como você. Se pensa que é o primeiro que me ameaça com uma arma de brinquedo, você é um retardadinho que merece um castigo pro resto da vida.

(BAM!)

- Hahaha. Palmas para o senhor! E todos os rótulos de coca-cola mostrando o quão bonachão esse miserável é. A propaganda é realmente a alma do negócio e estão prestes a perder seu garoto propaganda. Ah, esqueci de falar, a arma é de verdade.

- Cacete, moleque, você atirou na minha perna…

- Me senti assim com o pé quebrado. Nunca ia poder jogar a bola que você nunca me deu. Posso te chamar de você, não?(Tentativa de ser agradável com a visita)

- Tudo isso por causa de uma bola?

- Não seja cínico, velhote. Passei um ano inteiro fugindo de uma menina três vezes maior que eu. E tudo por sua culpa.

- Ela tem um belo chute de esquerda, não? Ho ho ho.

- Tudo bem, suas graças acabam por aqui, Noel. Um último pedido?

- Olhe no meu saco.

- Adeus.

Com um tiro na cabeça deixei o velho ao pé da árvore de Natal. Como sou um bom menino cumpri seu último pedido. Abri seu saco, e lá estava meu presente: Um cartão musical que desejava Feliz natal assinado por Robertona.

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A PORTA

O que me interessava era o jeito dela abrir as portas. Ela se levantava lentamente de seu assento erguendo-se nos lindos joelhos que davam continuidade a belas coxas grossas e rebolava vagarosamente com seus pés silenciosos até a parede. Do chão eu a via recostar-se ao lado do batente e me olhar com aqueles tremendos espiões castanhos sempre a fustigar minha ansiedade. Ah, como Ela ria do meu desespero. Lembro-me constantemente de seus dedos longilíneos percorrendo seu corpo, suas curvas tão bem esculpidas pelo mais sarcástico dos artistas. Desde sua barriga até a extremidade de sua outra mão, seus dedos deslizavam ao encontro da maçaneta que preenchia seu palmo com o desejo de ser utilizada. A porta fremia e rangia ao toque como se gritasse e implorasse o fim daquela dolorosa tortura. E Ela ria cada vez mais. Por um momento pensei em me levantar e forçá-la a acabar com aquilo, mas meus ouvidos recebiam a freqüência do som que saía de sua boca e que dizia: Eu prometo. Uma afirmação que de tão vaga me alentava e me fazia sentir que continuaríamos naquela batalha silenciosa até o fim de minha existência.

Finalmente a porta se abriu. A luz do dia ofuscava minha vista tão destreinada a outras belezas tão menos complexas. Ela caminhou em minha direção com todo aquele gingado característico mesclando-se à luz do sol, a qual ficava em segundo plano. Meu coração cada vez mais acelerado e inconsciente de sua iminente liberdade foi acalmado por aquelas mãos que um dia o estrangularam. Seus olhos sorriam enquanto sua boca, que soltava risos de chacotas, se aproximava da minha em perfeita inércia. Seus lábios tocaram os meus e em um murmúrio abafado pela saliva Ela disse: Está livre. Supliquei para aquilo não acontecer. Implorei em nome de todos os Deuses em quais não acreditava. O que recebi em troca foi um último sorriso, dessa vez menos irônico. Ela se levantou, deu-me as costas e caminhou em direção a porta que permanecia aberta. Atravessou o batente e com a chave que trazia no bolso me trancou naquele cômodo infernal para sempre. E eu amava o jeito com que ela fechava as portas.


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