Sim, eu sou deficiente. Não que alguém tenha perguntado isso, mas eu resolvi dizer por conta própria. Já estava na hora de começar a vomitar um pouco sobre minha aleijadice. Sou um cadeirante, sim isso mesmo, um cara que vive sobre cadeiras de rodas. Isso já basta para me colocar na classe dos aleijadinhos do Brasil, sem mencionar a minha querida amiga AME que está do meu lado todo dia o dia todo tirando meu fôlego, minha cara metade (falaremos dela em um futuro próximo, se ela permitir, claro). Mas, minha idéia principal será focar nos fatos que a Globo não mostrará na saga de Luciana, o mais novo símbolo da deficiência no Brasil. Então:

FATOS QUE VOCÊ DEVERIA SABER (OU NÃO) AO LIDAR, OU SIMPLISMENTE DAR(OU NÃO) PARA/COM UM(A) DEFICIENTE

FATO NÚMERO 1 – COITADO É VÍTIMA DE COITO

Sim. Isso mesmo. Nunca, em hipótese alguma, quero dizer jamais em sua vida – a não ser que você queira ser sodomizado por um kid bengala de prótese (que é um deficiente e que pode atuar na indústria pornô pelo sistema de cotas) ou ser atropelado por um cadeirante cego – chame, qualifique ou denomine um deficiente de coitado. Não é legal, não é educado e é extremamente preconceituoso. Os motivos são simples. O deficiente já é um ferrado por natureza. Ele não precisa que você diga isso pra ele, pois ele já sabe disso. Não que ele saiba de sua “coitadisse”, mas, sim, de sua ferradez. Chamá-lo de coitado só irá negativar seu potencial revolucionário por calçadas mais rebaixadas. Coitadificar o deficiente é ter consigo o sentimento de pena por aquele pobre mudo que fala com as mãos. Você não quer isso, eu não quero isso, os outros deficientes não querem isso.

PS: Se você é deficiente e se acha um coitado, você está traindo o movimento. Se você gosta que outras pessoas sintam pena ou dó de você, você está traindo o movimento. Se você acha edificante um olhar de consternação acompanhado de um meio sorriso e uma leve balançada de cabeça, você está traindo o movimento. Portanto, pare de se autodenominar coitadinho, se aceite torto, esquálido, perna fina e zarolho. Afinal, você é assim, se aceite e tenha confiança mesclada à segurança, pois este é o primeiro passo para ser um verdadeiro revolucionário.

____________________________________________________________

FATOS QUE VOCÊ DEVERIA SABER (OU NÃO) AO LIDAR, OU SIMPLISMENTE DAR (OU NÃO) PARA/COM UM (A) DEFICIENTE

FATO NÚMERO 2 – ESCADAS SÃO INIMIGAS

Escadas exclusivas para cadeirantes

Uma das coisas que mais atormentam os deficientes, principalmente cadeirantes e muletantes, são as malditas escadas. Essas perversas inimigas da diversão são encontradas em todas as formas: Escadinhas, Escadonas, degraus e lances intermináveis, desde butecos a motéis. Trocando em miúdos, não podemos encher a cara ou transar, sem uma escada pra nos foder. Ah, você ama escadas e adora cada degrau de sua existência? Não pensaria em um mundo sem a escada para o paraíso? Fique sabendo que se para ir pro inferno tiver rampa, rapaz, parabenizo o capeta.

O que mais nos enfurecem é chegarmos a um local, público ou privado (mas de uso coletivo) e não podermos entrar por causa das nossas “amigas” escadas. É como se não existissem caras que andam sobre rodas. Se você for curioso, comece a contar a partir do momento que você sai de casa até seu destino quantos estabelecimentos possuem um invento não descoberto por muitos engenheiros e arquitetos, a famosa rampa. Garanto que serão poucos, pouquíssimos.


Engenheiros lendo este post

Mas, o que um revolucionário faria em uma hora de aperto? Rodaria de volta pra casa? Mancaria para baixo do edredom? Não, camaradas! O Inimigo existe para ser derrotado. Pegue a lista do que você precisará para “descadificar” a sociedade:

- Uma Marreta.

Agora saia marretando todo e qualquer degrau, escada e semelhantes que estejam em seu caminho para alugar um filme, comer uma pizza ou estudar.

Você não consegue nem levantar um martelinho? Não há problemas. Então seja chato. Mas muito chato. Chame o gerente, o dono ou quem quer que seja responsável pelo local, manifeste sua indignação, faça-se ouvir, mostre seu potencial como consumidor, como pagador de impostos. No fim, não se sinta constrangido. Te acharão revoltado e outras denominações, mas você fez seu papel. Agora um único grito de indignação não é suficiente, precisamos aprender a berrar mais nos ouvidos de quem se recusa a ouvir. Afinal, somos todos revolucionários.

Tentativa de dissolver uma escada com ácido sulfúrico


0 Respostas to “Vida de Deficiente”



  1. Deixe um Comentário

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s




Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.